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Base de aço

Projeto estrutural detalhado é o fator mais importante para a redução de custos e prevenção de patologias

Ao contrário da construção com concreto e alvenaria, o sistema de aço estrutural não foi aproveitado em todas as suas possibilidades, mantendo um caráter tecnológico tradicional. Mas o cenário tende a mudar. A indústria se capacitou para a produção de insumos para a construção com aço ¿ tais como tintas, parafusos, conectores tipo pino com cabeça (stud-bolts), acabamentos e complementos, diversos tipos de lajes e painéis de fechamento e material de proteção térmica. Os números apontam a evolução: o volume de vendas de aço para estruturas de concreto praticamente se manteve nos últimos cinco anos, enquanto que as vendas para as estruturas de aço cresceram 52% no mesmo período, de acordo com o IBS (Instituto Brasileiro de Siderurgia).

Os aços estruturais mais comuns são os de média e alta resistência mecânica. Em função da resistência, ductilidade e outras propriedades, são adequados para utilização em elementos de construção sujeitos a carregamentos. Os principais requisitos para os aços destinados a aplicações estruturais são a elevada tensão de escoamento e tenacidade, boa soldabilidade, homogeneidade microestrutural, suscetibilidade de corte por chama sem endurecimento e boa trabalhabilidade em operações tais como corte, furação e dobramento.

 

Os aços estruturais podem ser classificados em três tipos principais, de acordo com a tensão de escoamento mínima: o aço carbono de média resistência (limite de escoamento mínimo de 195 a 259 MPa), aço de alta resistência e baixa liga (limite de escoamento mínimo de 290 a 345 MPa) e aços ligados tratados termicamente (limite de escoamento mínimo de 630 a 700 MPa). Entre os aços estruturais, o mais utilizado e conhecido é o ASTM A36, um aço carbono de média resistência mecânica. Entretanto, a tendência moderna de uso de estruturas maiores demandou o emprego do aço de maior resistência e baixa liga, de modo a evitar estruturas mais pesadas. "A adição de elementos químicos como o nióbio, vanádio, titânio e outros promovem grandes ganhos de propriedades mecânicas nesse tipo de aço", explica Catia Mac Cord Simões Coelho, gerente-executiva do CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço) e secretária de mercado e economia do Instituto Brasileiro de Siderurgia. Segundo o IBS, o aço de maior resistência e baixa liga é utilizado quando se deseja aumentar a resistência mecânica, permitindo um acréscimo da carga unitária da estrutura ou tornando possível uma diminuição proporcional da seção. "Esse tipo de aço melhora a resistência à corrosão atmosférica, ao choque e o limite de fadiga e eleva a relação do limite de escoamento para o limite de resistência à tração, sem perda apreciável da ductilidade", diz.

Em geral, a estrutura metálica pode ser utilizada em qualquer projeto, embora seja mais popular em obras que requerem mais liberdade arquitetônica, flexibilidade quanto a adaptações, compatibilidade com diversos materiais de fechamento e prazo reduzido de execução. Isso porque o sistema possibilita o trabalho em diversas frentes de serviços simultaneamente, além da diminuição de fôrmas e escoramentos, da redução de desperdícios e alívio de carga nas fundações. Mas para assegurar não só um melhor desempenho como também a redução de custos, o projeto de estrutura metálica exige um detalhamento muito maior do que os sistemas convencionais. A funcionalidade do sistema é evidenciada quando as soluções são definidas desde a concepção do projeto e do planejamento.

Além do maior aproveitamento técnico, a objetividade no planejamento e no detalhamento dos projetos pode apresentar outra vantagem para o setor do aço: reduzir a comparação de preços entre a estrutura metálica e a de concreto, que sempre foi uma prática corrente no setor, mas que tecnicamente se mostra equivocada. "A construtora não vai procurar alternativas técnicas se receber um projeto detalhado, com informações precisas e corretas", afirma Edison Côrrea, gerente de suprimentos da Serpal Engenharia. "Hoje é necessário manter junto ao cliente final um projeto rico de informações, mas sentimos que vem de forma muito fraca em função dos números do mercado e da produtividade", explica. A opinião de Catia Mac Cord Simões, do CBCA, é de que a opção por qualquer tipo de estrutura deve se basear nas características de cada sistema construtivo e o tipo da obra em análise. "É importante avaliar todos os fatores limitantes e condicionantes das alternativas em condições comparáveis, levando em conta aspectos como qualidade e desempenho, bem como a influência das estruturas nos demais serviços, incluindo as transferências de ganhos que podem beneficiar o custo total da obra", explica.

O projeto detalhado também facilita a resolução de problemas bastante comuns ligados à corrosão. A correta escolha e posicionamento dos elementos estruturais impede o acúmulo de poeira e umidade, além de possibilitar a especificação adequada do sistema de proteção do aço, de acordo com a agressividade do meio. De forma geral, o ambiente marinho e industrial severo são os maiores agressores do aço. A prevenção contra processos corrosivos acontece por meio da utilização de tecnologias de tratamento de superfície e pintura, sendo que a limpeza superficial é a etapa mais importante do processo. O mercado disponibiliza uma série de tintas para proteção contra corrosão, bem como produtos para proteção de estruturas contra incêndios.

Montagem

A fabricação da peça estrutural nas dimensões do projeto requer cortes e conexões de chapas e perfis. As peças estruturais de aço possuem uma dimensão (barras), enquanto a estrutura trabalha tridimensionalmente, exigindo novas conexões entre as peças. De acordo com informações do CBCA, o tipo de conexão é escolhido a partir do próprio comportamento - rígida ou flexível, por contato ou por atrito -, das limitações construtivas, da facilidade de fabricação - acesso para soldagem, uso de equipamentos automáticos - e da montagem - acesso para aparafusamento e suportes provisórios.

Na operação de montagem, é imprescindível a verificação das fundações, do alinhamento, nivelamento,esquadro, prumo e plano de rigging - detalhamento da movimentação vertical das peças desde o local da armazenagem até o posicionamento final na estrutura. As peças devem ser descarregadas e armazenadas o mais próximo possível da obra, para minimizar o remanejamento no canteiro e seu transporte vertical. Os dois tipos de equipamentos mais comuns para montagem são as gruas e os guindastes. Para a execução das ligações e outros serviços de campo, utilizam-se equipamentos auxiliares.


As ligações entre o aço e os demais materiais da obra merecem atenção especial, com um detalhamento preciso de todas as situações construtivas e das interferências com as instalações antes da fabricação. Segundo o projetista Carlos Freire, a técnica mais empregada é a de peças soldadas em fábrica e depois aparafusadas no canteiro. "Para uma obra com solda em campo tem de se criar dispositivos especiais no detalhamento, com ligações aparafusadas auxiliares para serem retiradas depois da solda", alerta. "Isso permite uma regulagem para garantir prumo, alinhamento e nivelamento antes da solda", finaliza.


Check-list

  • Planeje todas as etapas do processo.
  • Detalhe todos os projetos e especifique os materiais a serem empregados.
  • Faça um orçamento detalhado e as respectivas modificações para atingir o valor planejado.
  • Crie uma logística de compra e fornecimento dos materiais e mão-de-obra.
  • Elabore o planejamento financeiro.
  • Planeje a entrega do produto, assim como suas garantias.

Fonte: IBS (Instituto Brasileiro de Siderurgia)


Normas técnicas

NBR 8800 - Projeto e Execução de Estruturas de Aço em Edifícios (Métodos dos Estados Limites)
NBR 14323 - Dimensionamento de Estruturas de Aço em Situação de Incêndio - Procedimento
NBR 14432 - Exigências de Resistência ao Fogo de Elementos Construtivos - Procedimento
NBR 14762 - Dimensionamento de Estruturas de Aço Constituídas por Perfis Formados a Frio
NBR 5884 - Perfil I Estrutural de Aço Soldado por Arco Elétrico - Requisitos Gerais
NBR 6120 - Carga para Cálculo de Estruturas de Edificações - Procedimento
NBR 6123 - Forças Devidas ao Vento em Edificações - Procedimento
NBR 5419 - Proteção de Estruturas Contra Descargas Atmosféricas
NBR 8681 - Ações e Segurança nas Estruturas - Procedimento
NBR 6657 - Perfis de Estruturas de Aço
NBR 6355 - Perfis Estruturais de Aço Formados a Frio - Padronização
NBR 15217 - Perfis de Aço para Sistemas de Gesso Acartonado - Requisitos
NBR 15253 - Perfis de Aço Formados a Frio, com Revestimento Metálico, para Painéis Reticulados em Edificações - Requisitos Gerais

 

Diretor da Kurkdjian Fruchtengarten Engenheiros Associados

Quais os prós e contras da estrutura metálica?

Os principais pontos favoráveis são a rapidez na execução, eventual economia nas fundações e redução de altura de viga. Os desfavoráveis são fortemente o preço e a proteção contra o fogo, que em edifícios altos será sempre um problema do ponto de vista econômico, pois pode implicar cerca de 7 a 15% a mais do preço na estrutura.

Como contratar um bom projeto?

O projeto passa por um processo de revisão pelo fabricante. É necessário fazer um projeto de fabricação, mandar de volta para o projetista e para o arquiteto aprovarem. Esse trâmite nunca é entendido. O contratante acha que pode mudar o projeto à vontade depois da entrega, e executa como acha que tem de ser. O processo fica completamente errado. É preciso entender que o fabricante vai entrar nesse processo, que a gente precisa fazer um desenho detalhado e, com base nisso, precisamos fiscalizar esse detalhamento na fabricação, se está adequado, se o fabricante efetivamente entendeu a concepção. E nem sempre isso acontece, nem sempre entrega a obra dentro das especificações corretas de uso.

Há uma opinião corrente de que os calculistas não despendem tempo
e não empregam conhecimento nos projetos, acarretando estruturas mais pesadas e com muitas patologias. Você concorda?

Existem bons e maus engenheiros e o problema talvez esteja na concepção estrutural. De maneira geral, a remuneração de projeto tem baixado muito, então dedica-se menos tempo à parte de concepção. O mercado está contratando o projeto pelo menor preço, pouco se importam com qualificação técnica. Então o contratante, por desconfiança, contrata outra empresa para fazer auditoria no projeto solicitado. Se logo no princípio o contratante somasse esses dois valores, perceberia que o melhor seria encomendar o projeto por um preço justo.

Proteção ao fogo

As estruturas metálicas perdem resistência e módulo de elasticidade quando submetidas a temperaturas elevadas, acarretando o risco de colapso parcial ou total. Por isso, a segurança contra incêndio tem de ser prevista no projeto estrutural e contribuir na integração dos sistemas de proteção das edificações. No Brasil, a norma NBR 14432:2000 ¿ Exigências de Resistência ao Fogo de Elementos Construtivos de Edificações prevê os cuidados necessários para as estruturas. "É possível calcular a peça para que suporte o fogo ou empregar um material que sirva como barreira para revestir o aço", diz o professor Valdir Pignata e Silva, do Departamento de Engenharia de Estruturas e Fundações da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Segundo a norma, em situações de incêndio os edifícios de pequena área ou de fácil desocupação são considerados de baixo risco à vida, sendo isentos de verificação de segurança estrutural, tais como edifícios com área inferior a 750 m2, edifícios térreos providos de chuveiros automáticos, edifícios industriais térreos com baixa carga de incêndio e centros esportivos. Em casos de edificações de maior risco, a segurança estrutural deverá ser demonstrada de acordo com norma nacional ou estrangeira. Para o cumprimento das exigências da NBR 14432, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) publicou a NBR 14323:1999 ¿ Dimensionamento de Estruturas de Aço de Edifícios em Situação de Incêndio e a NBR 15200:2004 ¿ Projeto de Estruturas de Concreto em Situação de Incêndio, que fornece os requisitos mínimos de resistência ao fogo recomendados para as estruturas de uma edificação, independente do material que as constitui. Além da norma, é importante consultar legislações estaduais ou municipais, que podem prever exigências diferentes da Norma Brasileira e devem ser consultadas. No Estado de São Paulo, por exemplo, uma Instrução Técnica do Corpo de Bombeiros complementa a norma em alguns casos e em outros traz pequenas alterações que devem ser cumpridas.

 

O mercado já distingue a estrutura metálica como um sistema diferenciado do concreto, ou essa comparação ainda acontece?

Siegbert Zanettini - Essa é uma comparação muito burra que normalmente se faz. É incorreto pegar um projeto pensado em concreto e transformá-lo em aço para comparar custos. Esse pensamento é a conjunção de má-informação e pressão de mercado, pois há o lobby contrário do cimento, que é uma parte comercial forte, e de má-formação de arquitetos e engenheiros. Não há uma base estrutural conceitual clara para o sujeito empregar o sistema. Em geral se usa mal o aço. Ao contrário dos outros sistemas, a concepção do aço é tridimensional, ou seja, quanto menos material, melhor.

Ronaldo Soares - O nosso principal concorrente não é o sistema convencional, mas a ignorância. O desconhecimento é o principal problema do sistema industrializado em aço.

Há espaço no mercado para as estruturas metálicas? A tecnologia atende as necessidades do País?

Carlos Freire - O Brasil está aparelhado para fazer qualquer coisa. A estrutura metálica tem condição, competência e tecnologia vertical para atender o mercado globalizado.

Pedrosvaldo Caram Santos - Ao pensar que temos um produto de alta tecnologia, sustentável e reciclável, e pelas condições que a economia está e o atual patamar de desenvolvimento tecnológico, cada dia mais vamos sentir a necessidade dessas construções industrializadas. E aí os sistemas que empregam aço terão um lugar certo no mercado.

Valdir Pignatta e Silva - Ainda não conseguimos absorver a tecnologia internacional. Existem edifícios altíssimos de concreto no mundo, especialmente no Extremo Oriente. Há concreto em laboratório com resistência de 1.000 MPa, quatro vezes mais que o aço comum daqui. Em termos de sustentabilidade, 28% do concreto na Europa já é reciclado e no Brasil, apenas 10%. Lá fora a tecnologia do concreto está avançando bastante e aqui a gente não conseguiu trazer a tecnologia do aço.

 

Como apropriar e atualizar a tecnologia que vem sendo empregada fora do País?

Fernando Pinheiro - Um dos caminhos é fazer com que o arquiteto se aproxime um pouco mais da indústria. Falta ao profissional um pouco mais de ousadia e insistência nas suas intenções, pois ainda são poucos os que se aventuram a usar estrutura metálica que não seja em coberturas ou em projetos industriais. Falta um pouco mais de firmeza dos arquitetos e dos construtores em respeitar um pouco mais as intenções do projeto, porque a estrutura de concreto não tem parâmetro de comparação com a metálica. Uma intenção no projeto metálico é muito forte, tem que ser defendida. O construtor não pode querer orçar ou fazer um estudo comparando um outro projeto onde se muda totalmente a concepção.

Edison Corrêa - As alternativas que procuramos nem sempre partem da própria construtora, mas sim do cliente, que procura o melhor preço. A gente gostaria de receber um pacote do projeto que fosse competitivo, mas não é o que acontece. O projeto é muito simplificado, muitas vezes só o de arquitetura, e precisamos nos apoiar em grandes empresas para nos ofertar propostas com alternativas técnicas. Às vezes procuramos consultores para achar o melhor caminho e ter condições de ganhar uma concorrência e atender o cliente final.

 

O problema também está relacionado ao preço do aço, que é um produto com grandes oscilações de preço. Esse fator, ao longo dos anos, não deixou o mercado desconfiado? Quem hoje ousaria não se resguardar com relação a algum projeto em função do que ocorre com o aço?

Paulo César Arcoverde Lellis - Esse é um fator pontual. Cinco anos atrás acontecia o mesmo com o cimento. O valor do cimento estava lá em cima e agora caiu. O nosso problema é mais cultural. Quando há esse tipo de problema, qualquer ponto é motivo para que se faça uma análise e se imagine que isso atrapalha. O poder público, por exemplo, que é um grande indutor de construção, tem uma aversão impressionante ao aço.

Zanettini - Existe uma restrição na lei 8.666 que faz concorrência de preço de projeto. Isso acabou com boa parte da arquitetura que se faz no Brasil, porque ganha sempre aquele que oferece o menor preço, que quase sempre é o mais desqualificado.

 

O custo de estrutura no Brasil é competitivo em relação a outros países?

Alexandre Vasconcellos - Em muitos casos o preço de estrutura no Brasil é menor que no exterior.

Luiz Carlos Caggiano Santos - Hoje não somos competitivos porque o custo está alto. As usinas têm de insistir mais. Como fabricante, percebo que há duas usinas no Brasil e os técnicos estão na China vendo preço de estrutura metálica para trazer ao País.

Vasconcellos - Outro problema é a ausência de concorrência entre as siderúrgicas. Não posso deixar de comprar de um para comprar de outro. É um aspecto que existe, é real e temos que dançar conforme a música.

Luis Fabio Silva - Não acredito que o preço seja fator predominante. Criou-se há cerca de quatro anos um setor de estrutura metálica e há investimento em dinheiro e parceiros para alavancar o sistema. Há capacidade de demonstração do produto, mas não se usa.

Vasconcellos - É um problema técnico-cultural. Para usar estrutura metálica não é necessário ser ousado na arquitetura, pode-se usar o aço num edifício comum. Às vezes o cliente vai até a construtora com uma idéia, sem o projeto arquitetônico ou apenas com o esboço do projeto, para buscar alternativas. Então, procura fazer isso em concreto, talvez porque não conheça todos os sistemas, ou manda o projeto para um fabricante, que vai propor toda a obra em aço. Existem profissionais que se dizem calculistas de tudo, mas sequer sabem fazer um lançamento de estrutura.

 

É verdade que algumas estruturas projetadas são mais pesadas porque os calculistas não empregam conhecimento e tempo de projeto?

Freire - É uma realidade. Alguns fabricantes nos contratam com o projeto de estrutura metálica com graves erros nas ligações. Temos feito um retrabalho em cima do projeto básico, que não envolve só o cálculo estático da estrutura metálica. Não adianta calcular se há diversos problemas para montar, pois erros na montagem vão gerar patologias que nunca mais serão consertadas. Não dá para ser projetista de estruturas se não se conhece, além do cálculo, o processo de fabricação e se não se acompanha a montagem.

Zanettini - O controle não é mais feito na obra e sim na fábrica e deve ser aliado a toda parte que precisa antecedê-la, que está relacionada ao projeto. Não dá para fazer obra de aço sem bom projeto. Mas o que me parece fundamental é o setor começar a sentir o processo industrializado e de produção. E isso não diz respeito só ao aço, mas a qualquer material. A hora que a gente entender essa passagem da obra tradicional para a industrializada, a construção terá um nível de qualidade infinitamente superior.

 

Temos notado recentemente uma nova abordagem das empresas, caracterizada por uma tolerância maior quanto à composição de estruturas híbridas. Houve um erro histórico de encarar esse mercado?

Santos - A construção industrializada permite a otimização dos produtos e há uma tendência de usar tecnologia integrada.

Vasconcellos - Temos de usar o que há de melhor em cada material. O ideal é usar estruturas híbridas e mistas, em que um material complemente o outro. Não só ao usar aço e concreto, mas também a madeira onde for possível. Talvez falte essa idéia de compatibilização dos materiais.

 

Há alguns anos o Corpo de Bombeiros de São Paulo baixou uma instrução técnica considerada exagerada pelo setor. E agora, com a norma, dificuldades como essa foram sanadas?

Corrêa - Os profissionais com quem tenho conversado dificilmente utilizam a norma. Também não vejo preocupação com o dimensionamento em relação ao incêndio nos projetos estruturais. O engenheiro-projetista não pensa na massividade do perfil em relação a outro, nem escolhe esse perfil, às vezes de mesmo peso, em função dessa massividade. Não vejo a preocupação dos engenheiros ou dos arquitetos em relação ao posicionamento de pilares internos ou externos para minimizar o custo da proteção passiva.

 

Então o principal problema é o mau projeto?

Corrêa - Há muitos aspectos. Ao projetar pensando em situação de incêndio, falta estabelecer parâmetros para uma proteção mais barata. Tem outro problema: ao receber um projeto metálico, a construtora pede para o fabricante orçar com proteção passiva em separado. Eu, como construtor, também vou orçar essa proteção passiva, mas o fabricante, que não está nem um pouco interessado na proteção passiva, liga para a empresa de proteção, manda o projeto para orçar e junta os dois preços. Mas sabemos que não é assim que funciona. Da mesma forma que falamos em integrar os projetos de estrutura aço¿concreto, a norma de dimensionamento em situação de incêndio também tem de estar envolvida em todo esse processo. A proteção passiva não pode ser deixada na mão do fabricante ou do construtor, tem de ser definida como especificação do projeto. Mas não é o que acontece.

Vasconcellos - Por isso eu digo que não precisa ser arrojado para utilizar a estrutura, e mais uma vez a gente volta ao assunto da utilização compatibilizada dos materiais, incluindo a proteção passiva, que já deveria nascer com o projeto.

 

Quais as principais patologias?

Santos - Não existem problemas de patologia, mas sim ausência de discussão sobre patologia. Quando falamos de projeto, pensamos numa visão abrangente e nisso a gente tem de prever as patologias. É necessária a visão logística do sistema. Temos de ter detalhamento, fabricação, pré-montagem, transporte e montagem. O que se discute é que todas as ligações têm de ser estudadas. Se qualquer ligação aço¿aço ou com outros materiais forem estudadas no projeto, não haverá patologias.

Lellis - No aço, a falta de detalhe é mais flagrante. Numa obra industrializada tem de ter esse detalhamento.

Zanettini - Um detalhamento produtivo do edifício como um todo vai garantir uma qualidade muito maior que o próprio aço. Se você tem chuva numa treliça com os perfis virados para cima, haverá acúmulo de água no perfil. Detalhes de base com água acumulada nas extremidades acarretarão corrosão. A não lapidação do perfil na ponta acumula corrosão. Se não se faz juntas telescópicas para caixilharia para se trabalhar a movimentação do aço, haverá problema.

Silva - O setor de proteção do aço que é a galvanização tem a mesma dificuldade. Muitas vezes quem poderia especificar na obra uma estrutura galvanizada, deixa para o dono da obra pedir o que ele quer e ele só conhece a pintura, não ouviu falar de outro tipo de acabamento. Com isso ele perde na relação custo¿benefício, porque especificou algo que não conhece.

 

 

Reportagem de Kelly Carvalho
Construção Mercado 52 - novembro de 2005